Geração de valor em lugar de geração de lucro

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 Telmo Schoeler

Para quem é responsável pela gestão de empresas - acionistas, membros do Conselho e executivos - é importante a consciência de que no mundo moderno a perenidade das organizações requer foco na geração de valor e não mais apenas na geração de lucro. Para os que não enxergam a profunda praticidade disso, convém lembrar que ter a empresa valorizada é conveniente e vantajoso para questões negociais de toda ordem, obtenção de crédito e suas condições, para potencial joint venture ou mesmo para uma eventual venda.

Bem sei que falar em venda da empresa causa desconforto e calafrios na maioria dos acionistas, especialmente os de empresas de controle familiar que tendem a ver a posse de suas empresas como algo inquestionavelmente eterno. Mas é bom desmistificar o tema, encará-lo de frente, sem emoção. Quando os atuais controladores levam a empresa à bolsa e abrem seu capital admitindo o ingresso minoritário de novos acionistas, estão na verdade vendendo parte de sua companhia. Por outro lado, não cabe dizer que "jamais venderão a empresa". Primeiro, porque podem mudar de ideia, como os Moreira Sales que venderam o Unibanco, ou os Vontobel que se desfizeram da operação de fabricação de Coca-Cola, ou os Leão que venderam a Mate Leão. Segundo, porque a evolução dinâmica do mundo dos negócios, da tecnologia, da concorrência, da legislação etc. pode induzir a um movimento de alienação, como Casas Bahia em relação ao Pão de Açúcar, Tam a favor da Lan, Budweiser em direção à Imbev. E, por último, problemas societários, de gestão, econômicos, de endividamento etc. podem obrigar a venda, como ocorrido com Sadia, Gradiente, Eike Batista, Varig e tantos outros.  

Não importa as razões, o percentual de venda, nem a pressão. O fato é que você estará tanto melhor quanto mais valor tenha sua empresa, lembrando o detalhe crucial de que quem dimensiona isso é a intenção, interesse e percepção do comprador. O valor de um bem ou de uma empresa é um dimensionamento decorrente de dois vetores: um, quantitativo, matemático, sistêmico, previsível, decorrente de fórmulas, facilmente quantificável a partir de vendas, resultados, fluxo de caixa, market share, ebitda; o outro, qualitativo, decorrente da percepção de terceiros em relação a modelo de gestão, riscos, valores, ética, sustentabilidade, imagem etc. Você pode até contratar alguém para avaliar quantitativamente sua empresa, mas, realisticamente, o seu valor você só saberá quando perguntar ao mercado quanto este paga por ela, número esse que poderá ser menor, igual ou maior do que o quantitativo, em decorrência da percepção qualitativa da sua organização.

Dentro da lógica de geração de valor, cabem duas perguntas que devem estar sempre na mente dos decisores da empresa para deliberações: com este ato - construindo a fábrica nova / abrindo mais uma loja / trocando a diretoria / ampliando ou reduzindo produtos / alterando fornecedores / etc. - 1) estamos gerando valor? Passando a valer mais? 2) estamos nos tornando um ativo mais atrativo para aquisição? Tornando-nos um alvo mais desejável? A eventual reposta negativa sugere a não realização do pretenso ato, pois aí se aumenta custos, riscos, complexidade, controles etc. 

Diante disso, torna-se evidente que a valorização de uma empresa é hoje decorrente de uma visão holística de sua condução dentro de critérios de um capitalismo inclusivo, focado nos interesses e percepções de todos os stakeholders - fornecedores, clientes, funcionários, acionistas, e, por decorrência, a sociedade - e não mais apenas na busca do lucro em benefício apenas o acionista, como na visão do antigo capitalismo histórico. O empreendedor é vital e precisa ser remunerado pela iniciativa e pelo risco, mas sua existência é inócua sem consumidores, impossível sem fornecedores, impraticável sem funcionários, inviável sem remunerar os financiadores. Lucro, sem percepção qualitativa de valor, é inócuo, mas este, mesmo sem resultado pontual, é a definitiva medida de sucesso das companhias.

Fundador e presidente da Orchestra Soluções Empresariais e da Strategos Consultoria Empresarial  

FONTE: Jornal do Comercio